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EDUARDO PONTES, VIDA, OBRA, REVOLUÇÃO

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Ficha informativa

Autor Godelieve Meersschaert (coordenação editorial)
Editora Centro Documental Tomkiewicz
Edição
Ano de lançamento 2017
ISBN 978-989-20-7428-3
Capa Mole
Número de páginas 94
Altura (livros) 230 mm
Largura (livros) 150 mm
Lombada 6 mm
Peso 200 grs

Mais informação

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Sete Cidades, o teu grande AMOR.
As duas lagoas: uma azul, outra verde, o Céu e a Terra.
Era a caminhada de Ponta Delgada para Sete Cidades, para o café do manco, para os sermões do padre da igreja de São Nicolau, que ouvias depois duma noitada de discussões políticas acompanhadas de copos: “A Nossa Senhora é como um avião: poisa aqui, poisa acolá”. Andaste os 30 km muitas vezes, sozinho ou na companhia dos irmãos, dos amigos, dos estudantes açorianos. Era o silêncio das madrugadas e a bravura para trepar as colinas.
Eram as lavadeiras no regresso na camioneta, que levavam ces-tos pesados e volumosos de roupa lavada para a Cidade. Era o motorista que parava no sapateiro, na tasca, na casa da tia.
Cativaste-me porque Sete Cidades era o teu grande AMOR.
E continuaste a cativar-me com as tuas histórias coloridas, mas sobretudo pela tua profunda convicção de que é importante que cada um tenha oportunidade de  VIVER, com dignidade, ESTA SUA VIDA ÚNICA, inserida no longo percurso da Humanidade.
Eram os teus sonhos de adolescente: partir para o Brasil de barco com os teus amigos astrólogos e amantes da ovnilogia.
Optaste, no entanto, por  ficar nos Açores, abrindo uma enorme janela para o Mundo: eram os inúmeros livros que leste, isolado no teu quarto, na Rua dos Capas, em Ponta Delgada. Eram os discos de vinil, os concertos da Juventude Musical, o teatro, as exposições, as “performances artísticas”.
Foi a camaradagem nas lutas políticas da oposição, a ousadia na organização e dinamização de reuniões para as eleições de Humberto Delgado. Andavas de freguesia em freguesia com Sacuntala de Miranda e com “a Marquesa Vermelha”.  
Foi o isolamento e as torturas na prisão nos Açores quando tinhas 25 anos. Foi a viagem no paquete “Funchal”, da prisão de Ponta Delgada para o Aljube juntamente com o Dr. Borges Coutinho. Libertados depois dum ano, voltaram ambos para os Açores para continuar a luta política ainda com mais empenhamento.

Tinhas orgulho na tua tenacidade e força para dactilografar nas teclas da máquina de escrever – eras o mais veloz! – a Decla-ração da Oposição Democrática da CDE de Ponta Delgada de 1969, que teve como redatores, entre outros, Melo Antunes, Borges Coutinho, Júlio Quintino e tu próprio. Vangloriavas-te da “tua” máquina policopiadora e da tua capacidade de organizar a distribuição dos exemplares pelas ilhas todas, enganando a PIDE.
Foi o dactilografar, policopiar e editar mais um livrinho/livro dos teus amigos poetas e escritores para promover na livraria da cooperativa SEXTANTE. Os teus olhos brilhavam quando conta-vas dos livros políticos que vendias às escondidas, da estupidez política da PIDE, que embargava livros com capa vermelha, das muitas tertúlias e atividades culturais que organizavam.
Falavas com muita gratidão sobre as tuas idas a outras ilhas aço-rianas, sobre os encontros políticos e as reuniões clandestinas, que incentivavam uma reflexão profunda. Vangloriavas-te das tuas infiltrações no Seminário, em Angra do Heroísmo, e das muitas conversas esclarecedoras com padres e professores do Seminário, tu que fugias em criança durante as aulas de religião, porque as achavas aborrecidas, para, no cemitério, no meio das campas, “sentir” o que é a vida, o que é a morte.
Tinhas imenso orgulho do teu empenhamento na organização da Exposição do Mestre Canto da Maya na Galeria Teia, depois de a PIDE ter dado cabo da Cooperativa SEXTANTE.
As flores que levavas na manifestação do dia 1 de maio de 1974 te foram oferecidas pelos teus amigos da luta politica.
Tinhas a consciência de que a Revolução dos Cravos era o início duma grande Jornada.
Eram os trabalhadores das estufas do ananás, os assalariados agrícolas que viviam na miséria e podiam, finalmente, levantar a sua voz. Formulaste os Estatutos e criaste cooperativas em conjunto com os trabalhadores. Juntaste-te com as pessoas que não tinham habitação. Ocuparam casas vazias. Era o MES – o Movimento de Esquerda Socialista.

Não tinhas tempo para dormir: reuniões, debates, procura de novas formas de trabalhar, viver em comunidade.
Mas a FLA, a Frente de Libertação dos Açores, recebia apoio do exterior, das pessoas e grupos que olhavam desconfiados para o PREC (Processo Revolucionário em Curso).
A FLA organizou a Manifestação no dia 6 de junho de 1975.
No Wikipédia encontra-se uma explicação muito interessante sobre os contornos do 6 de junho. Vale a pena ler, porque es-clarece muito sobre o que está a acontecer na nossa sociedade, em 2017.
O escritor Cristóvão de Aguiar descreveria, lucidamente, os acontecimentos de 6 de Junho de 1975, no seu diário:

“É temerário reverter-se três ou quatro mil vozes, por mais ber-reiro que façam, na voz de um povo inteiro ou de toda uma Ilha que conta muito mais de um cento de milhar de habitantes. Isto faz lembrar os alevantes do século passado (1869) em que o povo defendia os interesses dos grandes senhores e não os seus. Ora, o 6 de Junho também não fugiu à regra. Os três ou quatro mil manifestantes foram, na sua maior parte, arrebanha-dos nas zonas rurais pelos grandes proprietários, para servir de eco (triste vocação) aos interesses de seus amos e senhores. (...) A democracia, que custou os olhos da cara para ser con-quistada, tem por vezes destes efeitos perversos. Na verdade, a minoria ativa que oprime e sempre oprimiu o povo micaelense existe - é a mesma que se manifestava ao seu lado em Ponta Delgada, em junho, seis.”

O 6 de Junho marcou uma geração. Marcou o Eduardo. Viu mui-tos companheiros partirem para o continente. Eduardo fugiu com o bilhete de identidade do irmão Bernardino e com o apoio incondicional da mãe, que levou pimenta para o aeroporto, caso fosse necessário defenderem-se.
O MES no continente era muito diferente do MES dos Açores. Aí viveste na Sede, na Avenida Dom Carlos I. Andaste pelo país todo com o Nuno Teotónio Pereira a guiar o 2 cavalos. Estiveste a trabalhar no MES em Évora.  Fizeste parte do último Comité Central do MES.
Foste para a “Voz do Povo” em 1980 e mais tarde para o CIDAC. Foram noitadas e fins de semanas para dar apoio aos chilenos, aos nicaraguenses, aos timorenses, à Frente Polisário, aos pa-lestinianos, a El Salvador.
Foram dias a ouvir as histórias “pessoais” dos cooperantes sue-cos, dinamarqueses e noruegueses que participavam num curso de preparação no CIDAC para irem trabalhar como médicos ou engenheiros para as ex-colónias portuguesas.
Entretanto, no final de 1981, encontrámo-nos. Tivemos aquela faísca!!!
Em janeiro de 82 fomos viver juntos, na Amadora. Conceição, transmontana, Olegário, açoriano, Helena e Bert dos Países Bai-xos e Ide, japonês, ajudaram-nos na mudança.
“Todos os Santos” acompanharam-nos nas nossas ações, ou foi por acaso?

A 1 de novembro de 1982 levámos o nosso colchão para a Rua da Ladeira, na Cova da Moura. Instalámo-nos na casa da Rosa e Jacinto, empregada doméstica e carpinteiro, respetivamente, ambos do Couço, com grandes histórias de resistência a Sa-lazar. Adoraram o teu convite para ir em 1983 ao concerto do Zeca Afonso no Coliseu, em que colaboraste na organização. Era para ficarmos dois meses. Ficámos um ano.
A 1 de novembro de 1983 fomos viver para a nossa casa na Rua B da Cova da Moura.
A 1 de novembro de 1984 reunimo-nos com os vizinhos para obter água para as 900 pessoas que aqui habitavam.  Era a pri-meira reunião da pré-associação Moinho da Juventude.
1 de novembro ’89 entrou em vigor o primeiro Acordo com o Instituto da Segurança Social
1 de novembro ’90 inauguramos a nova Sede

Em 1985, recordando os 10 anos do 6 de junho, convidaste os teus amigos açorianos para se consolar/reconfortar, na nossa casa na Cova da Moura, com uma cachupa confecionada pelas vizinhas.
Foste Presidente da Comissão de Moradores do Alto da Cova da Moura.
Entretanto, organizaste diversas atividades da pré-associação do Moinho da Juventude: o concurso das carrinhas, das bici-cletas. Chamaste o Pitum e a Lira para serem júri do concurso de desenhos. Os jovens que ganharam o concurso, hoje a viver na França, ainda se lembram bem! Compraste a bola de futebol para as crianças da nossa rua, que construíram em palha “a sede da equipa” na Rua 7 de Julho.
No princípio dos anos oitenta, íamos aos domingos de manhã, com a Augusta, a Isabel e a Conceição, à biblioteca “O Moinho” na Rua São Tomé e Príncipe, 10A. Em pouco tempo inscreve-ram-se 700 leitores.
Um dia, o Nino veio a nossa casa para nos falar do irmão que podia treinar as equipas de futebol: era o Jacinto. Deste lhe todo  apoio e o Jacinto dinamizou os jovens para assumirem respon-sabilidade, para serem pontuais e assíduos, para trabalharem em equipa e com respeito. Era um animador nato, humilde e com imensa vontade de aprender e refletir. Jacinto marcou tantos jovens que entretanto vivem nos Estados Unidos, em Londres, Manchester, Paris, Nice.

Trazias filmes do CIDAC (Centro de Informação e Documenta-ção Amílcar Cabral), de Cabo Verde, Guiné Bissau, Angola, que projetávamos no nosso sótão para os nossos vizinhos.
Ajudaste a Joana, multada porque tinha vendido peixe na rua, ao pé do Cais de Sodré. Conseguiste a publicação de um anúncio de borla no jornal, exigido pelo tribunal.
Fritavas petingas para os Belgas da JOC, Juventude Operária Católica, que vinham trabalhar na Cooperativa das Empregadas Domésticas, a COOPERSERDO, em Lisboa, e que dormiam no nosso sótão.
Cozinhaste para os amigos de Geel (Bélgica), que instalaram a eletricidade na biblioteca do Moinho, na Rua de São Tomé e Príncipe, e compraste a tinta para eles pintarem o comboio que andava em cima das nuvens.  
Foste tu que redigiste os primeiros Estatutos da Associação Cultural Moinho da Juventude. Na tua hora de almoço, em 1987, registámo-la em conjunto: tu, que introduziste “Cultural”, eu que propus “Moinho” e a Augusta, que acrescentou “Juventude”- e foi a oficialização da associação no notário na Amadora.
No dia 07 de Junho de 1988 fomos expulsos da Rua São Tomé, 10A, com “A Nossa Biblioteca [O Moinho]” pelo novo presidente da Junta de Freguesia e pelo vereador de habitação da CMA, e tivemos a visita de deputados europeus. Não aceitámos a inter-venção dos deputados, mas contámos com a força dos vizinhos para procurar uma solução. Há males que vêm por bem. Desis-timos da licença que tínhamos recebido do anterior presidente da Junta de Freguesia para construir um 1º andar na casa abar-racada, sem alicerces, da Rua de São Tomé, e encontrámos na Travessa do Outeiro uma oportunidade para as fundações da nossa sede.
Lançaste a campanha de “Títulos de Solidariedade”, subscri-ta pelo Agostinho da Silva, pelo Borges Coutinho e por muitos moradores. Conseguimos o dinheiro para a aquisição do rés-do--chão da sede.
Foi uma loucura para obter todas as licenças para a organização do Torneio de Atletismo no dia de Páscoa de 1989. Andaste, na tua hora de almoço, de uma repartição para outra, fazendo sete cópias dos diversos requerimentos nas lojas fotocopiadoras.
À janela do nosso sótão vimos as mulheres batucar na véspera do casamento do nosso vizinho. Ouvimos a noite toda os conse-lhos cantados à noiva. Incentivaste-me a falar com as batucadei-ras para formar um grupo, o grupo de batuque Finka Pé!
Fizeste os contactos com o Instituto Cabo-verdiano do Livro e obtiveste livros à consignação. Contactaste a Câmara Muni-cipal de Amadora e conseguiste um lugar na Feira dos Livros em Amadora. O teu amigo André Jorge emprestou a casinha da Editora Livros Cotovia. Foram noites bonitas ao luar, depois do nosso trabalho, no meio dos amantes dos livros.
Promoveste no Moinho, com o apoio de amigos do CIDAC, cur-sos de crioulo e de cultura cabo-verdiana para os professores das escolas do concelho de Amadora.
Em conjunto com o Delegado de Saúde de Amadora, António Luz, organizámos o primeiro Curso de Promotores de Saúde. Redigiste os primeiros Estatutos do AJPAS, Associação de In-tervenção Comunitária, Desenvolvimento Social e da Saúde.
Em 1992, a Dina falou-nos, na reunião da direção, dos feste-jos na sua ilha natal cabo-verdiana, Santo Antão, e contactou o primo, o Sr. Martinho, para fazer o barco do Kola San Jon e os conterrâneos para fazerem os tambores. Fomos buscar o barco a casa do Sr. Martinho, respeitando todas as cerimónias, e pro-nunciaste um discurso lindíssimo. “Boca Santa!”.
Contactaste o teu amigo arquiteto, Francisco Keil do Amaral, o mesmo Pitum do júri dos desenhos, para ajudar a remodelar os planos para a construção do Centro Social 6 de Maio na Damaia, e conseguimos a aprovação da verba para construção deste Centro no quadro do Projeto NOW, “new opportunities for wo-men”, de Bruxelas. Durante cinco anos ficámos responsáveis por este Centro perante o Fundo Social Europeu. A seguir, entregá-mos, por 1 escudo, o Centro à Comunidade de 6 de maio.
Tiveste, no princípio dos anos noventa, muitos fins-de-semanas na organização da legalização dos indocumentados, em conjunto com os funcionários da Embaixada de Cabo Verde. Faziam fila, vi-nham de Sintra, Almada, Setúbal. Nem tinhas tempo para almoçar.
Trouxeste em março de 1995 o Tiago, 7 anos, para viver na nossa casa, em conjunto com o irmão-gémeo, Nuno, a viver connosco havia 1 ano, quando lhe faleceu o padrinho. Estavas tão indignado com os primos, que ainda na presença do padrinho, falecido dum AVC, disseram “o que é que fazemos com aquele ‘pretinho’?” De-sígnio do destino: Tiago voltou depois de viver 20 anos em Paris em dezembro de 2014. Vinha para ficar alguns dias, mas acompa-nhou-nos nos dias da tua despedida.
Fazias as sopas de abóbora para o Walter, agricultor suíço refor-mado, que veio durante 16 anos, nos meses de janeiro e fevereiro, trabalhar na construção do Moinho, e que dormia na nossa casa.

Dinamizaste a Biblioteca Ramos Rosa. Fizeste as fichas de todos os livros e vídeos. Lias os livros e entusiasmavas os outros.
Dinamizaste “Na Boka Noti”, envolvendo 5 associações cabo--verdianas. Trouxeste Kodé di Dona e Nasia Gómi de Cabo Ver-de. Era a primeira vez que saíam do seu país. Os admiradores do Funaná do Kodé di Dona tomaram conta da nossa casa: às 6h00 da manhã já tocavam à nossa porta e as noitadas, com a nossa casa cheia de gente, foram grandes.
A cantora cabo-verdiana, Lura, assegurou a abertura do concer-to da Nasia Gómi, que organizámos no Cine-Teatro D. João V, na Damaia.
O racismo e a xenofobia que invadiram o nosso bairro na altura da morte do Ângelo, em 2001, ligaste-os à especulação imobili-ária e à ganância do poder e do dinheiro. Tinhas a capacidade de ver em perspetiva, de estabelecer ligações e enquadramentos.
Lutaste muito junto dos moradores da Cova da Moura. Os teus textos no Boletim do Moinho testemunham isto mesmo.
Os teus amigos confirmam isto neste livrinho.
A Cova da Moura transformou-se nas tuas Sete Cidades.

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Nota 
2017-04-07

Eduardo Pontes, Vida, Obra, Revolução

Belo

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