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CHUVA TOMBA CAPIM

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Ficha informativa

Autor Tosé Figueiredo
Edição Primeira Edição
Ano de lançamento 2016
ISBN 978-989-20-6697-4
Capa Mole
Número de páginas 286
Altura (livros) 210 mm
Largura (livros) 150 mm
Lombada 25 mm
Peso 400 grs

Mais informação

Era no fim do tempo do cacimbo. A terra abria gretas de sede, os rios escondiam a última lágrima, as árvores estiolavam o derradeiro veio de seiva, as lavras de massango não eram mais do que remendos na mata, a jibóia da picada adormecia a barriga na areia, e só uma ou outra ave de rapina ousava cortar o cristal azulíneo do céu. O capim, seco e altivo, sugando pelas raízes a magra condensação da noite, pela manhã ainda oferecia as espigas reais do cota-cota.

Eis que, então, por uma madrugada sem lua, o vento chegou em repentinas rajadas de fúria. Ao princípio, aqui e além, trouxe apenas as bátegas grossas, despedidas como pedras, depois, mais rápidas, num golpe de ímpeto desvairado. Após uma curta pausa, o céu escuro desabou a água de um rio sem margem, lavou a terra imensa e sedenta, o líquido escorreu pelo ventre do solo, e logo se sumiu pelas frinchas do terreno, como costumam fazer os ratos das anharas. Encharcada, sob o peso da água, a imensa seara começou a curvar-se, lenta, para o chão, até que (…)

Por João Duarte Rodrigues, editor e director literário

 Chuva tomba capim é uma grande e grata surpresa para o leitor. E é mesmo um livro maravilhoso para qualquer leitor que, como eu, começou a ler a sério com livros de aventuras africanas, como As minas de Salomão, de Rider Haggard, na versão em português de Eça de Queiroz, livro que nos fazia mergulhar no exotismo e frisson dos mistérios de África e no respeito pelos povos africanos e seus costumes.

Chuva tomba capim, esse belo livro cujo nascimento saudamos hoje aqui, é composto por 10 relatos/contos, 2 deles bem longos, e por 7 poemas fortemente marcados por uma lírica amorosa das coisas da natureza. Tem ainda um belo e poético texto introdutório e um muito útil glossário final. O trabalho de design e impressão do livro são muito bons, devo reconhecer: é uma edição de autor com um nível excecional.

A voz de um escritor

A voz literária de Tosé Figueiredo é de uma sabedoria que eu classificaria de «verdadeiramente camiliana», ao contar estas histórias. E isto é um elogio, claro.

Dentro dos seus contos surgem-nos personagens extraordinárias, ricas, complexas: o mestre-de-cerimónias, Belarmino Geadas, e as luxuriantes irmãs Quinhento, das «Rosas de Simulambuco»; o senhor Silva Magalhães, o degredado político d’ «As Missangas do Silêncio»; o administrador livre-pensador António de Meirelles; Telmo Porfírio da Purificação Salústio, o barbeiro melómano do Maculo, amigo de Alves Reis; o Padre João, padre holandês da Missão do Galangue, que aprende português de maneira pouco ortodoxa.

E lá estão, ao fundo destas histórias, paisagens com cheiros e sociedades com gente viva, como, por exemplo, o poderoso retrato da vida social e política que é traçado n’ «O Sino da Granja».

Tosé Figueiredo é uma voz literária que foi contemporânea, no espaço e no tempo, de uma literatura que normalmente é definida como «literatura colonial» e que foi tradicionalmente considerada pela crítica e pela academia como uma literatura regional e menor, de propaganda da política do Estado Novo e da apologia do Império. Mas nesta obra vê-se claramente que há outra face dessa literatura feita nos tempos coloniais e em território colonizado, este livro faz parte de uma literatura outra, que retrata sim uma realidade amada e as suas contradições.

Uma das armas, aliás, que Tosé Figueiredo usa como mestre é uma persistente, delicada e saborosa ironia que nos coloca sempre num ponto de vista crítico dos dogmas de uma sociedade fechada e repressiva. A Igreja e o Exército, por exemplo, não são poupados a essa ironia.

A literatura colonial

Tosé Figueiredo pertence pois a uma família de narradores do tempo colonial que, escrevendo sob grandes constrangimentos censórios, sociais e políticos, se libertaram desses constrangimentos através da paixão, do amor por aquilo que descrevem: uma sociedade diferente, onde a natureza pujante manda, onde o exotismo fura as regras, onde o fantástico espreita a cada momento.

Isto aconteceu com muitos criadores artísticos, até com escritores que eram quadros do regime colonial mas que foram tocados pela varinha mágica da mãe África: lembro-me, por exemplo, de Carlos Selvagem e de Henrique Galvão. Isso aconteceu também com o seu companheiro neste livro, o pintor Neves e Sousa.

É pois altura, parece-me, de voltar a olhar para esta literatura e de não meter tudo no mesmo saco. Estão passados os tempos em que se definiu esta literatura como «ausência de gramática e de talento» ou «onde a humanidade brilha pela ausência». Lê-se este livro e vê-se que isso não é verdade. Não há livro mais longe da «literatura oficial» que este, um livro apaixonado, generoso, cheio de vida, das suas contradições, das suas esperanças.

O histórico e o etnográfico

Outro dos interessantes pilares desta obra é a valorização do histórico e do etnográfico na narrativa. De facto, um fundo histórico cuidado e muito educativo de todas as histórias, sem peso excessivo, sempre ao serviço da vivacidade da narrativa, faz deste pequeno livro um muito valioso livro de história de Angola.

O mesmo se passa com a componente etnográfica das histórias. Aqui é onde o apoio das ilustrações de Neves e Sousa mais se faz notar. A ligação entre os textos e os desenhos, a sua tonalidade clássica, o seu sóbrio diálogo é um grande valor deste livro. Lê-lo permitiu-me relembrar com carinho o facto de ter tido a sorte de ser o editor de um álbum de Neves e Sousa, em 2008, projeto que me foi proposto por um caro amigo meu, Miguel Anacoreta Correia, um dos portugueses mais angolanos que conheço. As ilustrações de Neves e Sousa e esse pilar etnográfico transmitem uma grande veracidade e sabor ao que nos é contado.

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